VIOLÊNCIA POLÍTICA DE GÊNERO E O SILÊNCIO IMPOSTO ÀS MULHERES
IDEIVA RASIA, EX VEREADORA
“Aprendi que política não é um lugar para mim. Eu não me adequo. Eu tenho ideias próprias, eu penso, eu debato, eu luto (...). Eu sempre falei que não conseguia ser ‘samambaia’ na política. E, de repente, por eu não ser ‘samambaia’, por eu ter tido coragem de falar, coragem de cobrar, coragem de debater, eu não fui aceita, eu fui tirada, né? As pessoas não acreditaram”.
“Quando falo em perspectiva estrutural, não estou dizendo que está apenas na estrutura ou que é só do modo de produção em que vivemos, ou da atualidade. Na verdade, ela existe desde que o mundo é mundo, desde que falamos de violência contra as mulheres. A violência política é uma forma de violência contra as mulheres”.
A ex-vereadora foi alvo de violência política de gênero em 2022, durante uma sessão da Câmara Municipal, quando o ex-vereador Marcos Manoel a ofendeu com as expressões “capacho de prefeito” e “hiena”, além de dizer que ela estava “aprendendo o que é lidar com testosterona avançada”.
Essa visão de que a política é um ambiente masculino e destinado àqueles que têm “testosterona avançada” é reflexo de uma estrutura patriarcal. Apesar do Brasil ter se tornado uma república em 1889, a mulher só pôde votar em 1932, e somente em 1947 uma figura feminina ganhou uma eleição no estado de Mato Grosso.
Além disso, Mato Grosso nunca elegeu uma mulher para alcançar cargos como de governador e prefeito de sua capital, o que reforça que há uma estrutura patriarcal presente, tanto no estado como no Brasil. E a pesquisadora em Direito e Ciências Sociais, Priscila Stella, que atualmente realiza mestrado na Universidade Federal de Mato Grosso sobre violência política de gênero e raça, com foco específico em mulheres negras e indígenas, relata que:
Stella também destaca que o impeachment foi um golpe parlamentar e afirma que, posteriormente, foi atestada a inocência da ex-presidenta em relação às acusações vinculadas à Petrobras e às chamadas “pedaladas fiscais”, que, em 2016, foram usadas como justificativa para sua destituição. E que esse processo de retirada de uma mulher de sua posição, mesmo sem provas verídicas e dentro de um escândalo que ainda estava em fase de julgamento, é mais um instrumento de violência política e silenciamento.
Outro caso marcante no Brasil relacionado à violência política foi o assassinato de Marielle Franco, que, em 2018, atuava como vereadora no Rio de Janeiro. Sua morte foi considerada um crime de motivação política, e dois dos principais mandantes, Domingos Brazão e Chiquinho Brazão, foram condenados pelo STF, em 2026, a 76 anos de prisão por duplo homicídio, tentativa de homicídio e organização criminosa.
A morte de Marielle comoveu o país, tanto pela violência quanto pela motivação do crime. A vereadora era contra a grilagem de terras em áreas dominadas por milícias na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o que teria provocado a reação do grupo envolvido, segundo a Polícia Federal.
O relatório da investigação aponta que o delator Ronnie Lessa afirmou que a motivação do crime foi o fato de Marielle estar "atrapalhando os interesses" dos irmãos Brazão, principalmente por sua atuação em comunidades de Jacarepaguá dominadas por milícias.
Além deles, também foram denunciados o delegado e ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Rivaldo Barbosa, acusado de ajudar a planejar o crime, e o policial militar Ronald Paulo de Alves, acusado de acompanhar os deslocamentos de Marielle. Já o ex-assessor Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, responde por integrar a organização criminosa ao lado dos irmãos Brazão.
O caso demorou anos para ser solucionado por diversos fatores. Um dos principais foi a suspeita de inércia e desvio de conduta por parte da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro, o que levou à federalização da investigação. A Polícia Federal concluiu que delegados e investigadores atuaram para obstruir as apurações e proteger os mandantes do crime.
Também foi constatado pela Polícia Federal e o STF que houve interferência direta do então chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, que havia sido nomeado um dia antes do assassinato de Marielle e, logo em seguida, passou a ser o responsável pela condução das investigações.
Durante todo esse período, quem manteve a cobrança por justiça e pela solução do caso foi a família da vereadora. Dessa mobilização surgiu o Instituto Marielle Franco, criado com a missão de preservar sua memória e inspirar novas lideranças, especialmente mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+ e moradores das periferias, a ocuparem espaços na sociedade e na política, dando continuidade ao legado deixado por Marielle.
Entre as iniciativas desenvolvidas pelo instituto está a pesquisa sobre violência política, realizada desde 2020, sendo a edição mais recente publicada em 2025. O novo levantamento reúne diversos casos de violência política de gênero e raça registrados entre 2021 e 2025, totalizando 77 ocorrências com foco em ataques praticados no ambiente digital. A pesquisa identifica episódios de violência simbólica, psicológica, física e reputacional contra mulheres negras, LGBTQIA+, periféricas e defensoras de direitos humanos. Os dados foram produzidos a partir dos atendimentos realizados pelo Instituto Marielle Franco, pela Justiça Global e pela Terra de Direitos.
Além da pesquisa, o instituto também desenvolveu o Manual de Violência Política de Gênero e Raça no Âmbito Digital, que reúne informações para ajudar vítimas a reconhecer esse tipo de violência, orientando sobre como registrar provas, denunciar os casos e quais órgãos podem ser acionados.
Já entre os dados apresentados pela pesquisa, foi constatado que 71% dos casos registrados na internet correspondem a ameaças e intimidações, sendo o tipo de violência mais frequente, seguido pela desinformação, com 11%, e pelo discurso de ódio, com 8%. Outro dado importante é que, nos casos de ameaça e intimidação, 30,9% envolveram ameaças de morte. Esses números reforçam que o caso de Marielle não foi um episódio isolado, mas faz parte de uma realidade enfrentada por diversas mulheres dentro de um ambiente que ainda é hostil para elas.
Por isso, o caso de Marielle, somado ao de Dilma Rousseff e aos diversos episódios de violência política contra mulheres durante as eleições de 2018 e 2020, impulsionou o debate sobre a misoginia na política e contribuiu para a criação da lei federal 14.192/21, sancionada em 2021.
A política é um ambiente de disputas, sejam partidárias ou ideológicas. Mas espera-se que seja um lugar democrático, que dê espaço a todos para debaterem e colocarem em prática o que deve ser feito para melhorar a qualidade de vida da população. Entretanto, o contraponto desse ideal é que, na prática, as parlamentares femininas são frequentemente silenciadas, interrompidas constantemente numa tribuna, têm majoritariamente seus projetos vetados, são ameaçadas, e no ápice da violência, acabam tendo seus mandatos cassados.
Um exemplo do peso de ser uma mulher em um cargo de poder vem dá ex-vereadora Ideiva Rasia, de Lucas do Rio Verde. Ela relata que dificilmente conseguia fazer seus projetos serem aprovados pela câmara municipal em 2020, e que por ser a única parlamentar feminina na época, ela teve certeza que seus colegas homens só iam deixá-la trabalhar se houvesse submissão, e que somente assim ela seria respeitada. Por isso, ela desistiu de concorrer a vereadora novamente, após perder a eleição em 2024, em que ficou como suplente do PT pela câmara municipal de Lucas do Rio Verde.
Diante disso, a pesquisadora afirma, em sua pesquisa de mestrado, que mulheres em seus mandatos são oprimidas, têm seus cargos públicos cassados e suas famílias são colocadas sob ameaça, tudo para não ocuparem seus cargos e o poder permanecer concentrado nas mãos dos homens.
Um dos exemplos que ela utiliza para visibilizar isso é a própria Lei federal 14.192/21, criada em 2021, diante do aumento de casos de violência política contra candidatas nas eleições de 2018 e 2020. Além de dois grandes acontecimentos que evidenciaram a necessidade de uma legislação que estabelecesse normas para prevenir, reprimir e combater qualquer tipo de deslegitimação da mulher.
Essa nova lei estabelece normas para “prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher, nos espaços e atividades relacionados ao exercício de seus direitos políticos e de suas funções públicas, e para assegurar a participação de mulheres em debates eleitorais”. Assim, garantindo tanto o direito à participação política de mulheres, como também vedando discriminação e desigualdade de tratamento (Art. 2º), vigiando as obrigações dos partidos políticos, e ainda definindo o que a configura violência política de gênero.
Já sobre os casos emblemáticos, o primeiro ocorreu em 2016, quando a ex-presidenta Dilma Rousseff sofreu diversos ataques nas redes sociais por usuários de internet que utilizaram caricaturas suas para atacar sua aparência. Outras ofensas vieram por memes, que utilizam do humor para chamá-la de burra ou fazer piadas machistas.
Banco de imagem sem direitos autorais, com memes da Dilma Rousseff.
Arquivamento
em Pauta
90% arquivamentos
De acordo com o Núcleo de Estatística e Gestão Estratégica do Departamento de Planejamento do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), foram registrados 30 casos entre 2022 e 2025. Desse total, 27 foram arquivados, representando uma taxa de arquivamento de 90%.
Dentre as ocorrências registradas, o MPMT identificou que nove denúncias eram relacionadas a assédio moral e seis a ameaças.
“Ao desclassificar o crime, o processo deixa de considerar o real objetivo da agressão, que é a exclusão das mulheres dos espaços de poder. Os crimes contra a honra, na maioria das vezes, dependem da iniciativa da própria vítima e possuem menor rigor investigativo. Isso enfraquece as investigações, resulta em penas mais brandas, arquivamentos ou faz com que o caso seja tratado como um mero conflito cotidiano.”
As razões que levaram a Justiça a arquivar tantos processos, no entanto, não foram informadas. A opacidade na obtenção de dados se repete em outras instituições: procurada pela reportagem, a Delegacia da Mulher respondeu que qualquer informação deveria ser consultada diretamente junto ao Judiciário. Já o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) não respondeu aos questionamentos, limitando-se a enviar links com informações genéricas que já haviam sido divulgadas à imprensa.
A dificuldade de acessar esses dados reflete a falta de políticas públicas e transparência, devido à demora de resposta e à falta dela.
Já dentro de um cenário nacional, uma pesquisa realizada pelo Observatório Nacional da Mulher na Política da Câmara dos Deputados, em parceria com o Instituto Alziras, apontou que, entre os anos de 2021 e 2023, uma em cada quatro denúncias de violência política de gênero foi encerrada ou arquivada no Brasil.
Em entrevista à CNN Brasil, Tauá Lourenço Pires, diretora do Instituto Alziras, avaliou que a legislação ainda está em fase de incorporação pelo sistema de justiça. “A gente tem uma expectativa de que, aos poucos, o próprio sistema consiga captar o conceito. Se uma violência é lida como difamação ou injúria, acaba-se não compreendendo que aquele ato impede a atuação política da mulher, descaracterizando a violência política de gênero”, explicou.
Essa mudança de classificação acirra o debate sobre como a Justiça Eleitoral e o Tribunal de Justiça (TJ) lidam com o tema. Entre as mulheres ouvidas por esta reportagem, duas relataram que, apesar de terem apresentado provas contundentes, viram seus casos serem arquivados. Outras preferiram não denunciar por medo ou desconfiança, e há quem ainda aguarde o andamento do processo no Judiciário.
A advogada Marcoreli Carvalho, especialista em Direito Civil, alerta que tratar a violência política de gênero como mera injúria ou difamação reduz drasticamente a gravidade jurídica do problema.
Para a especialista, o Judiciário sofre com o apego a interpretações restritivas da lei, exigindo provas quase explícitas de que a agressão ocorreu exclusivamente por a vítima ser mulher. Na prática, porém, essas violências acontecem, na maioria das vezes, de forma indireta: psicológica e moral, por meio de silenciamentos, exclusão de espaços de fala e humilhações públicas.
Ao desconsiderar o recorte de gênero nas denúncias, a própria Justiça enfraquece a eficácia da lei. O combate a esse cenário exige o fortalecimento de decisões que reconheçam a violência política de gênero de forma ampla, dando o devido peso aos desafios e vulnerabilidades que envolvem o "ser mulher" no ambiente político.
A violência política de gênero é toda ação, conduta ou omissão que, por razões de gênero, tem por finalidade ou efeito impedir, dificultar, constranger ou desestimular a participação de mulheres na política, seja como candidatas, eleitas, líderes partidárias, ocupantes de função pública ou agentes de debate público.
Contudo, cinco anos após a criação da lei, os dados revelam sérias dificuldades na implementação real da legislação vigente e punição dos casos denunciados.
A violência política de gênero é toda ação, conduta ou omissão que, por razões de gênero, tem por finalidade ou efeito impedir, dificultar, constranger ou desestimular a participação de mulheres na política, seja como candidatas, eleitas, líderes partidárias, ocupantes de função pública ou agentes de debate público.
Contudo, cinco anos após a criação da lei, os dados revelam sérias dificuldades na implementação real da legislação vigente e punição dos casos denunciados.
Ouça ELAS
Cada mulher que passa pela política mato-grossense carrega uma história única. Algumas trajetórias se encerram brevemente ao fim do primeiro mandato; outras seguem firmes, na disputa por uma candidatura nas eleições de 2026. No entanto, independentemente da duração dessa jornada, a vida de todas elas é profundamente transformada desde os primeiros passos nesse universo
GRACIELE MARQUES, EX DEPUTADA ESTADUAL E
VEREADORA DE SINOP
“Eu mudei a minha rotina: passei a não passar sempre pelo mesmo lugar, a não andar sozinha, a não sentar de costas para a rua se estivesse num estabelecimento comercial. [...] Então, há vários cuidados que as mulheres passam a tomar para conseguir ocupar esse espaço."
Sua rotina como vereadora foi marcada por violência psicológica e ameaças. Entre as intimidações, teve o carro riscado em duas ocasiões e precisou procurar a delegacia pelo menos cinco vezes para registrar ocorrências, duas delas relacionadas a ameaças de morte. Mas, apesar da violência que sofreu, cinco das suas queixas à Justiça não foram para frente.
“Arquivados. A maioria absoluta. Tem um que ainda está em andamento, mas a tendência também é que não seja reconhecido. Inclusive, já teve uma primeira avaliação desse caso, e foi dito que não era violência política de gênero. Depois, alguém da Justiça, não vou me recordar da função agora, acabou que houve um pedido para reavaliar, dizendo que havia evidências de violência política de gênero. Mas até agora não teve desfecho. A maioria, porém, foi arquivada”, apontou a ex-vereadora.
Cada mulher que passa pela política mato-grossense carrega uma história única. Algumas trajetórias se encerram brevemente ao fim do primeiro mandato; outras seguem firmes, na disputa por uma candidatura nas eleições de 2026. No entanto, independentemente da duração dessa jornada, a vida de todas elas é profundamente transformada desde os primeiros passos nesse universo
Já o que evidência fala da ex-vereadora é o fato de que 90% desses casos são arquivados, o que reflete numa falta de perspectiva de punição por parte da justiça.
Além desse caso, o ápice dessa violência em Mato Grosso ocorreu com a ex-vereadora de Cuiabá pelo PT, Edna Sampaio, que teve duas vezes a sua candidatura em processo de cassação. Na primeira vez, o Tribunal de Justiça (TJ) derrubou o processo. Já na segunda, ela foi acusada de corrupção, o que resultou em seu afastamento do cargo e em sua inelegibilidade por oito anos; tudo isso no início de 2024. No ano seguinte, porém, conseguiu provar sua inocência.
Apesar de ter recuperado seus direitos políticos, a ex-vereadora perdeu metade de seu mandato por conta de uma injustiça e de uma perseguição política. Em nenhum momento recebeu indenização da Justiça nem da Câmara Municipal por ter seu nome associado a um esquema de “rachadinha”, quando, na realidade, tratava-se apenas de uma verba indenizatória que havia recebido.
Além disso, a violência contra Edna Sampaio por ser mulher e a única pessoa negra da Câmara começou muito antes da cassação. Ela afirma ter enfrentado momentos difíceis, com homens gritando constantemente contra ela, interrompendo suas falas e fazendo falsas acusações. Um desses episódios ocorreu quando a equipe de marketing publicou um vídeo de sua atuação no plenário com a música “Fé”, da cantora IZA, que continha o trecho: “Fé pra enfrentar esses filha da puta”. Diante disso, o vereador Chico 2000 leu uma nota de repúdio em nome de todos os parlamentares, chamando-a de misógina, machista, mentirosa e criminosa, afirmando que a parlamentar estaria xingando a mãe deles.
Sua rotina como vereadora foi marcada por violência psicológica e ameaças. Entre as intimidações, teve o carro riscado em duas ocasiões e precisou procurar a delegacia pelo menos cinco vezes para registrar ocorrências, duas delas relacionadas a ameaças de morte.
Mas, apesar da violência que sofreu, cinco das suas queixas à Justiça não foram para frente.
Diante dessa violência psicológica e moral, os impactos na saúde mental tornam-se inevitáveis, fazendo com que muitas pessoas desenvolvam quadros depressivos. Além disso, a pesquisa “Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Públicos e Privados”, realizada pela Fundação Perseu Abramo (FPA), entre 2021 e 2023, afirma que 69% das entrevistadas que sofreram violência física ou moral relataram impactos diretos na saúde mental, desenvolvendo traumas psicológicos, medo constante e insegurança.
Com Edna Sampaio não foi diferente. Diante de tudo o que estava acontecendo, ela precisou faltar às sessões da Câmara Municipal porque o ambiente havia adoecido sua saúde mental, a ponto de enfrentar uma depressão durante o mandato. Contudo, mesmo diante de tudo o que enfrentou, ela mesma afirma que desistir nunca foi uma opção. Em todos os episódios de cassação — aprovados pela maioria dos vereadores, com apenas quatro votos contrários — o apoio de seus eleitores e familiares foi fundamental para que conseguisse se reconstruir.
EDNA SAMPAIO, EX VEREADORA POR CUIABÁ
“Quando querem destruir a sua humanidade e destruir quem você é, você precisa de referências não apenas da sua própria consciência, mas também de pessoas próximas, que te conhecem e te lembram constantemente de quem você é. E isso foi fundamental para mim.”
Com o apoio da família, Edna conseguiu se reconstruir, enfrentando inúmeras violências, mas também se reerguendo e lutando para conquistar mais espaço na política, um direito que pertence a todos.
Com o apoio da família, Edna conseguiu se reconstruir, enfrentando inúmeras violências, mas também se reerguendo e lutando para conquistar mais espaço na política, um direito que pertence a todos.
Partidos políticos
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas eleições realizadas entre 2018 e 2024, a média de candidaturas femininas foi de 34%, enquanto apenas 17% das candidatas foram eleitas. Os dados atuais colocam o Brasil na 139ª posição no ranking internacional de representação de mulheres no parlamento, entre 184 países, tornando o país um dos piores em termos de representatividade feminina.
Apesar da obrigatoriedade de cada partido reservar entre 30% e 70% das candidaturas para cada gênero, o que falta, de fato, é compreender a qualidade dessas candidaturas e se essas mulheres são realmente ouvidas e atendidas no âmbito político. De acordo com a pesquisa realizada nesta reportagem, as entrevistadas relatam uma representatividade "instrumentalizada", em que a figura feminina é utilizada apenas para cumprir a cota estabelecida. Além disso, elas fazem parte de uma estrutura partidária na qual as decisões são tomadas majoritariamente por homens, inclusive em espaços em que, teoricamente, as mulheres deveriam ser protagonistas.
No primeiro caso, que demonstra como as mulheres têm pouco espaço dentro dos partidos, Michelly Alencar, do União Brasil, relata que enfrentou dois principais desafios quando se candidatou:
"Primeiro, o desafio de receber o fundo eleitoral: nem sempre ele chega no tempo determinado ou é repassado integralmente. Isso é um problema na maioria dos partidos. E, segundo, fazer com que a própria chapa acredite que você tem potencial para disputar uma campanha vitoriosa, porque, geralmente, as mulheres estão ali mais para compor do que para serem eleitas"
MICHELLY ALENCAR, VEREADORA POR CUIABÁ
A desigualdade na distribuição do fundo eleitoral não é um problema restrito ao caso da vereadora, mas também se manifesta em nível nacional. Segundo a plataforma 72h, que acompanha em tempo real os recursos destinados às campanhas eleitorais, apenas nove dos 23 partidos enquadrados na cláusula de desempenho em 2022 destinaram 30% ou mais de seus recursos às candidaturas femininas. Entre eles, o União Brasil destinou 29% do fundo eleitoral às mulheres, o PT, 26%, e o Partido Liberal (PL), apenas 17%.
Apesar de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinar que, nas eleições, sejam destinados 30% dos recursos do Fundo Eleitoral às campanhas femininas, por ser uma regra recente, a meta ainda não foi plenamente atingida. A expectativa é que, em 2026, haja maior cumprimento da cota estabelecida.
Já no segundo caso, relacionado à dificuldade da liderança feminina em ter autonomia e lidar com episódios de violência política de gênero, a atual prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti, do PL, relata:
“O partido é formado por quem? Por mulheres ou por homens? Homens. No meu caso, o PL é homem. Então, esse partido, que é formado por homens, a gente tem que ver que, culturalmente, não tem uma defesa da mulher. Tem o uso da mulher para a formação de chapas partidárias.
FLÁVIA MORETTI, PREFEITA DE VÁRZEA GRANDE
Apesar de Moretti afirmar que o partido sempre a apoiou, ela relata que ainda há dificuldade do PL em reconhecer a violência política de gênero, justamente porque muitos homens não compreendem o quão difícil é vivenciar as situações enfrentadas por lideranças femininas dentro dos parlamentos. Um exemplo desse conflito diário é a própria disputa entre ela e Wanderley Cerqueira do MDB, presidente da Câmara Municipal de Várzea Grande, contra quem atualmente move um processo por violência política.
O episódio que levou ao processo aconteceu no dia 18 de março, quando o presidente da sessão dirigiu-se ao vereador Bruno Rios com a seguinte frase: “Quer leitear a prefeita? Leiteie de outra forma.” O caso foi interpretado pelo Ministério Público Estadual (MPE) como um suposto crime de injúria, já que o termo “leitear” é usado popularmente como expressão para afirmar que alguém está “puxando saco”. Contudo, dentro daquele contexto, a fala também pode ser interpretada em um tom sexual e ofensivo, enquadrando-se como violência política de gênero.
Diante disso, o órgão requereu a declinação da denúncia e encaminhou o processo para a Vara de Violência de Gênero, onde deverá ter continuidade a análise da queixa, segundo apuração do Várzea Grande News. Contudo, o destaque está no fato de que, quando esse processo chegou à Câmara para ser julgado como denúncia de quebra de decoro, o plenário rejeitou a queixa, e as três vereadoras eleitas votaram a favor de Cerqueira.
O episódio demonstra tanto a dificuldade de algumas mulheres em reconhecerem situações de violência de gênero quanto a falta de apoio e solidariedade diante de um episódio que pode ser interpretado como uma ofensa sexual.
A prefeita Flávia Moretti e Wanderley Cerqueira.
Além disso, por causa desses conflitos, Flávia Moretti possui vários projetos travados, que não são pautados nem colocados em votação. Prova disso é que, até 22 de maio, havia o registro de 20 projetos do Executivo travados, sendo que dois deles perderam o objetivo diante da demora na tramitação.
Mas, segundo o presidente do PL de Mato Grosso, Ananias Filho, a dificuldade da prefeita em governar estaria ligada à sua personalidade forte e ao seu estilo “personalista”, característica que pode ser interpretada como individualista ou até egoísta. Ele critica a postura da prefeita em relação ao embate com Wanderley Cerqueira, com quem já protagonizou trocas públicas de críticas.
Isso levanta a discussão de que dificilmente um partido enxergará plenamente a violência política de gênero quando é ocupado majoritariamente por homens. E, embora Flávia Moretti afirme receber apoio do partido, na prática, esse apoio não legitima sua denúncia contra Wanderley Cerqueira.
Outro caso que demonstra que os partidos ainda possuem uma estrutura pouco acolhedora para as mulheres envolve Edna Sampaio, do PT, e Grasiele Marques, que também pertenceu ao partido durante seu mandato como vereadora. Ambas afirmam ter enfrentado dificuldades para serem acolhidas em situações de violência política.
“Eu, particularmente, sou uma mulher que está na política por um partido de esquerda, mas por muitas vezes não me senti acolhida. Na maioria das vezes, não da forma como deveria. A mesma coisa que a gente está falando sobre a Justiça não ver com clareza a violência política, os partidos não só não veem como, muitas vezes, praticam essa violência”, concluiu Grasiele, ex-vereadora de Sinop pelo PT.
Mídia e Proporção
Em janeiro de 2026, a deputada estadual Janaina Riva afirmou ao MidiaNews que sua candidatura ao Senado era inevitável e negou ter sofrido qualquer tipo de pressão, interna ou externa, para desistir da disputa. No entanto, durante semanas, a mídia repercutiu constantemente rumores de que Blairo Maggi e Eraí Maggi teriam articulado uma possível composição em que Janaína seria vice de Otaviano Pivetta ao Governo do Estado, abrindo espaço para Carlos Fávaro disputar o Senado.
Contudo, mesmo após a deputada negar publicamente, em março, que essa conversa tivesse ocorrido, o tema continuou sendo explorado pela imprensa. E em abril, veículos ainda entrevistaram Max Russi, presidente do ALMT, sobre essa possibilidade. O episódio evidencia não apenas a dificuldade de reconhecimento da autonomia política feminina, mas também a tendência de dar mais voz a lideranças masculinas na definição dos rumos políticos das mulheres, revelando uma questão de gênero presente na cobertura midiática.
Isso não é apenas um fato, como a própria candidata declarou em 30 de abril em uma coletiva de imprensa que classifica esses questionamentos frequentes sobre sua candidatura, como uma falta de respeito. Para essa reportagem, declarou o seguinte:
“Quando uma mulher ocupa um espaço que historicamente sempre foi dominado por homens, ela naturalmente incomoda. No meu primeiro mandato ouvi, por exemplo, um secretário de Estado dizer que eu fazia da Assembleia Legislativa uma extensão da minha penteadeira. Além disso, não eram raros comentários sobre a minha aparência ou sobre minha vida pessoal, coisas que dificilmente seriam dirigidas a um homem no mesmo cargo."
JANAINA RIVA, DEPUTADA ESTADUAL
Segundo a professora e pesquisadora de gênero e comunicação Tamires Coelho, a diferença no tratamento direcionado a homens e mulheres na política aparece nessas questões simbólicas destacadas pela deputada, como o cuidado excessivo com a forma como uma figura feminina se veste e também com o seu papel como esposa ou mãe. O contrário, porém, dificilmente acontece com os homens, principalmente durante os períodos de campanha eleitoral.
Isso acontece em Mato Grosso porque predomina uma agenda mais conservadora, na qual as mulheres, muitas vezes, não são levadas a sério. Além disso, ainda não existe um debate efetivo sobre a violência política de gênero.
"Existe uma minimização no sentido de uma dificuldade de reconhecer. E, quando se reconhece, é uma coisa muito forte. 'Ah, foi um assédio que alguém fez com uma deputada', é lido como assédio; um toque explícito é visto como algo, e gera repercussão muito mais pelo sensacionalismo do que pela lógica da violência", afirma a professora.
Um dos caminhos para enfrentar esse cenário é ampliar a presença de mulheres na cobertura de pautas relacionadas aos direitos e à participação feminina na política. Além disso, é importante que as campanhas eleitorais e a atuação de mulheres em cargos públicos recebam uma cobertura jornalística mais ampla, equilibrada e livre de estereótipos de gênero. Segundo a professora Tamires Coelho, também é fundamental investir na formação de futuros jornalistas para que compreendam melhor as questões de gênero, raça e classe, contribuindo para uma cobertura mais crítica, consciente e responsável.
Embora esse seja um trabalho árduo, trata-se de uma mudança necessária não apenas para a cobertura política em Mato Grosso, mas para o Brasil de forma geral. Ainda há um longo caminho a ser percorrido para que mais mulheres ocupem espaços na política e para que a própria população reconheça a capacidade das mulheres de exercer cargos públicos, liderar partidos e atuar com autonomia em suas decisões. Esse é um esforço coletivo: acreditar mais nas mulheres, tanto no jornalismo quanto na política, além de eleger representantes comprometidos com pautas voltadas à ampliação do acesso à saúde e à educação, bem como à melhoria das condições de vida da população brasileira.